terça-feira, 25 de maio de 2010

Sul de Minas

Nos anos 60 nós costumávamos passar as férias nas estâncias hidrominerais do sul de Minas Gerais. Primeiro íamos para São Lourenço, depois que Edinho nasceu passamos a freqüentar Caxambu, ficávamos no Hotel Marques – a melhor cozinha caseira de que tenho lembrança.
Andávamos de charrete, que podia ser das grandes, puxadas por cavalos, ou as mini-charretes, puxadas por bodes (nossas preferidas).
Elaine, eu, Luciene e Edinho na charrete em Cambuquira

Corríamos pelo parque, andávamos de pedalinho... era um tempo muito gostoso.
A partir de 1966 passamos a freqüentar Cambuquira. Foram tantas férias em Cambuquira que não consigo lembrar ao certo. Íamos os cinco apertados dentro do fusquinha que precisava ter um “rack” pra carregar as malas.

Passeio de barco a remo no lago do
Parque das Águas de Cambuquira

As viagens para Cambuquira eram longas naquela época. Como não havia nada para prender a atenção das crianças, era comum haver brigas entre mim e meus irmãos. Não raras vezes meu pai tinha que parar o carro no acostamento para resolver as pendências que, invariavelmente vinham acompanhadas de choro e gritaria. Sempre que ele chegava a parar o carro, sabíamos que alguns tapas e palmadas iam acontecer e aí tentávamos escapar da mão pesada de papai.
Numa dessas vezes, ele nos obrigou a pular para um buraco que ficava atrás do banco traseiro do fusca. Éramos ainda tão pequenos que coubemos os três ali. Era apertado e não sobrou muito espaço para implicâncias mútuas e seguimos viagem mais quietos.
Primeiro ficávamos no Hotel Silva, um enorme prédio cor de rosa no alto de uma grande ladeira. Depois passamos para o Hotel Vitória, mais bem localizado, com um serviço melhor, mas sem o charme do Hotel Silva.
Um dia, o caçula Edinho, na época com uns três anos de idade, desapareceu. Meus pais deram o alarme e o hotel inteiro passou a caçar o Edinho. Todos já estavam nervosos com aquele sumiço até que de repente alguém o encontrou: estava no fundo do terreno que havia nos fundos do hotel, num barracão onde um cozinheiro matava diversas galinhas num caldeirão de água fervendo. Uma cena desagradabilíssima a qual ele assistia na maior tranqüilidade.
Meus pais fizeram muitas amizades em Cambuquira. Minha tia Terezinha também freqüentava com as primas Elaine e Luciene. Algumas vezes fomos para a fazenda “Simpatia” de um amigo de meu pai que tinha uma deliciosa cachoeira.

Lá pudemos conviver com galinhas, porcos e gado de uma pequena criação. Também era gostoso passear no milharal e comer mingau de milho, curau e milho cozido.
Toda manhã íamos ao parque das águas minerais. Algumas vezes saíamos eu e Elaine para um passeio a cavalo.
Certa vez, mamãe optou por voltar para o hotel de charrete depois de mais uma manhã no parque das águas de Cambuquira. O cavalo estava cansado e muito suado, pois tinha acabado de voltar de um passeio a um engenho de cana que ficava distante do centro. No final de mais uma das inúmeras ladeiras de Cambuquira – afinal, trata-se de uma cidade mineira, a terra das montanhas, o pobre animal derrapou no paralelepípedo e foi ao chão. Tentando se levantar, ele patinava, escorregava, caia de novo e sacudia a charrete. Consegui pular e fiquei na calçada olhando apavorada minha mãe e meus irmãos sacudindo e gritando em cima da charrete. Tudo acabou bem, foi apenas um grande susto que me deixou com medo de montar a cavalo durante muitos anos.
Numa outra ocasião, vínhamos retornando junto com outras famílias de um passeio à fazenda Simpatia, quando um dos fuscas (todo mundo tinha um fusca) perdeu a direção e desceu por uma ribanceira até parar dentro de um grande buraco. Só quem se feriu foi meu pai, que arranhou a testa ao passar pela cerca de arame farpado para socorrer o pessoal que estava no carro acidentado.
Visitamos outras cidades do Sul de Minas; lembro-me de Três Corações, Campanha, Varginha e Poços de Caldas.
A partir de 1969, passamos a freqüentar Lambari. O parque das águas não era grande coisa, mas nós estávamos ficando mais velhos e a grande pedida era o parque das bicicletas.
Foi lá que finalmente aprendi a andar de bicicleta. O parque ficava no meio de um bosque, cheio de caminhos de terra e pequenas trilhas no meio das árvores. Havia uma locadora de bicicletas no local, mas a partir de nossa segunda temporada em Lambari, papai passou a levar nossas bicicletas na kombi.
Junto do parque das bicicletas havia uma piscina pública e umas duchas das águas que saíam do lago. Era ótimo pedalar bastante e depois se refrescar naquelas duchas. Também gostávamos de dar a volta no lago, passear de bicicleta por um bosque que havia do outro lado do lago e aprontar no Parque Hotel.
Como toda criança, a gente se enturmava e sempre arrumava o que fazer. O Hotel tinha uma mesa de pingue-pongue que estava sempre ocupada. Geralmente os homens que jogavam sinuca no salão ao lado reclamavam do barulho.
No verão de 1972 nós fomos para Lambari com minhas primas Elaine e Luciene. Tia Terezinha não pode ir porque tinha sido mordida pelo seu gato de estimação - Pixote. Ele era um gato muito brabo que teve um ataque de ciúmes quando a viu fazer carinho em outro gatinho. O outro gatinho era nosso, chamava-se Pisolino e estava na casa dela enquanto viajávamos.
Pois bem, sem a presença de nossos tios, meus pais ficaram responsáveis por cinco crianças. Como não existia quarto para sete pessoas, eles tiveram que nos acomodar em um quarto, enquanto ele e minha mãe ficaram em outro, não muito distante, mas longe o suficiente para não perceber a farra que a gente fazia.
Nessa época Elaine tinha 13 anos, eu 12, Luciene 10, Eduardo 10 e Edinho 8. Lógico que não podia prestar. Algumas vezes a gente fazia de conta que ia dormir e quando meus pais se recolhiam, a gente voltava a circular pelo hotel.
Uma das brincadeiras mais divertidas era trocar as chaves dos quartos dos respectivos lugares no painel numerado da portaria. Dava uma confusão!!! Que maldade...a gente ria muito vendo os hóspedes doidos verificando um monte de chaves penduradas nos ganchinhos trocados.... Nem sei se descobriram que era a gente.
Uma vez, por causa de algo engraçado que aconteceu na sala de jogos, Elaine riu tanto que foi se agachando até o chão. Quando ela levantou, havia uma poça de xixi – uma moça já com 13 anos de idade metida a gente grande fez xixi nas calças. Imagina a gozação da turma!
Outra vez, saímos às escondidas do quarto e quando percebemos que seríamos descobertos, nos escondemos na sala da sinuca. Elaine se enrolou na colcha que cobria uma das mesas. Depois, ao tentarmos nos esconder, passamos pela porta do quarto de meus pais. Na corrida Elaine se atrapalhou com a colcha na qual se enrolara e caiu no chão, meu pai despertou com o barulho e ao abrir a porta deu de cara com a ridícula cena: ver aquela moçoila caída no chão enrolada numa colcha e apenas com a cabeça de fora. A bronca que levamos foi histórica.
Numa das vezes que passamos férias em Lambari, nos hospedamos no Hotel Bibiano. Dessa vez choveu desde o dia em que chegamos até que meu pai decidiu encurtar as férias e retornarmos ao Rio. Passamos uns quatro dias sentados nas cadeiras que ficavam na entrada do hotel. Quando a chuva dava uma estiada, eu e meus irmãos pegávamos as bicicletas e saíamos pedalando, mas era por pouco tempo e voltávamos para o hotel molhados e cheios de lama.
Bem perto do Hotel Bibiano tinha uma ladeira de chão batido, bem íngreme e esburacada. A diversão da galerinha era descer essa ladeira de bicicleta. A velocidade que a bike pegava era muito alta e não raras vezes alguém se estabacava. Criançada sem juízo mesmo!

Um comentário:

  1. EU PROCURO POR FOTOS DE CHARRETES EM CAMBUQUIRA E NÃO ACHO. DE PREFERENCIA NA DÉCADA DE 50, QUANDO EU IA COM MEUS PAIS. DE QUALQUER FORMA GOSTEI DA SUA FOTO NA CHARRETE. OBRIGADO.

    ResponderExcluir