quinta-feira, 13 de maio de 2010

Muriqui - o princípio

Em 1964 fomos convidados para passar uns dias na casa de praia de uma amiga da minha mãe, de nome Maria Luíza, mãe da minha então melhor amiga, Valéria. Ela era esposa de um coronel do exército e estávamos em pleno regime militar. A viagem para Muriqui, de cerca de 90 km, levava perto de quatro horas. Seguíamos pela Av. Brasil e depois pelo caminho que leva a Universidade Rural e depois para Itaguaí. Daí a viagem continuava por uma estrada de terra.
Esse casal tinha também um sítio na estrada para Itaguaí onde pude vivenciar a experiência de tirar uma laranja do pé, descascá-la e comer sentada no meio do laranjal.
No sítio a gente corria com o pé na terra, perseguia as galinhas que ciscavam soltas e tentávamos escalar algumas árvores com as naturais dificuldades de crianças urbanas.
Eu tinha um problema que me causava alguns machucados: não sabia amortecer minhas quedas: ao levar um tombo, ia com tudo para o chão e deixava um pedacinho do dedo, do joelho.... um pedacinho qualquer. E chorava, chorava...
Muriqui esteve presente na vida da família por vinte anos. Lembro do meu pai ouvindo no rádio, apoiado no muro da casa da Luiza, a transmissão da Copa do Mundo de 1966. Mas a parte mais importante de minha vida em Muriqui aconteceu na adolescência.
A praia de Muriqui é de areia monazítica, que agarra na pele da gente. Mas o mar era muito limpo e de águas muito calmas – um paraíso para pais que querem fugir do perigo das praias de ondas fortes. Eram dias de muito calor, muitas brincadeiras na praia e muito sol – sem precisar de filtro solar, afinal, o buraco na camada de ozônio ainda não estava dando problemas.
Muriqui tinha luz elétrica muito fraca, falhava muito. Era comum passarmos as noites conversando a luz de velas. Também havia muito, mas muito mosquito. Aliás, os mosquitos permaneceram pelos vinte anos que frequentamos.
Perto da rua onde ficava a casa dessa família passava um rio encachoeirado. A gente costumava ir lá à tarde e tomávamos banho por entre as pedras. Tinha uma parte mais funda da onde eu e meus irmãos mergulhávamos. Pouco tempo depois, acho que na tempestade que desabou na região do Rio de Janeiro em 1966, esse rio foi totalmente transformado. Ficou um rio sem pedras e de águas barrentas.
Muriqui tem uma cachoeira que era muito linda!!! Infelizmente, após a construção da estrada Rio-Santos, o acesso à cachoeira ficou mais fácil e as coisas começaram a mudar.
Lembro também da primeira vez na vida que soube o que era um reveillón. Numa noite, de repente, todo mundo começou a comemorar, a se abraçar e a brindar. Estávamos em Muriqui e eu lembro nitidamente quando perguntei a mamãe o que estava acontecendo. Estavam comemorando o quê afinal de contas? Mamãe então explicou que estávamos saindo de 1965 e entrando em 1966. Eu ouvi e fiquei me perguntando por que isso era tão festejado....

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